A Festa de Bom Sucesso

Festa de Bonsucesso e Carpição

A Festa em Louvor a Nossa Senhora de Bonsucesso e o Dia da Carpição são referências para entender toda a identidade da região do bairro de Bonsucesso e assim, adentrar em uma das camadas mais importantes da permanência de organização da religiosidade do catolicismo popular em conjunto com práticas profanas e o senso comunitário deste local.

A igreja reconhece a festa desde 1741, mas o primeiro documento comprovando a existência da festividade é uma carta do Vigário Padre Manuel Garcia solicitando a permissão de sair a procissão como de costume no último domingo do mês, neste caso o dia 25 de agosto de 1907, após a missa em celebração ao Dia de Nossa Senhora de Bonsucesso. O interessante desta carta é a indicação de um festeiro para a organização da comemoração, pois o mais comum seria o próprio vigário se responsabilizar pela festividade. Também encontramos uma nota de jornal que veremos mais adiante.

O pesquisador Maurício Pinheiro destaca o “de costume” para entender a existência já secular da comemoração, isso ainda no início do século XX. Em sua dissertação de mestrado, ele destaca alguns detalhes que apontam a questão comunitária como resistência principal das festividades e a importância dos templos religiosos do bairro: 

Cabe considerar a hipótese de que, nesses períodos de interregno, a Capela servia como elemento aglutinador das várias etnias que habitavam o lugar, constituindo um espaço vivo de criação e recriação de representações simbólicas da fé. O constante estado de abandono físico da Capela, comprovado em vários momentos pela documentação, responde somente pela falta de posses materiais da maioria dos moradores do entorno e arrabaldes da Capela. No entanto, a decisão em intervir através de reformas demonstra o tempo todo a sua importância e reafirma a sua condição de espaço de articulação dessas camadas populares. (PINHEIRO, 2004)

O começo do século XX é interessante para entender a força da fé popular em oposição ao catolicismo mais ortodoxo recomendado por Roma. O Concílio Vaticano I, em 1890, observa mais de perto as práticas leigo-religiosas, muito comuns no Brasil devido às questões do fraco controle da igreja em um país de grandes dimensões e, também por características da própria colonização brasileira. A resistência africana influenciou diretamente nos ritos de fé praticado pelos populares, que misturavam a mitologia negra e a crença indígena. Os símbolos de brasilidade, mesmo pelo estado, só começam a ser “aceitos” a partir da década de 1930, no governo de Getúlio Vargas.

A visão mais ortodoxa da fé da igreja aparece em um documento de 1913 no qual o Padre Celestino, o mesmo que é homenageado com nome de rua na região central de Guarulhos destaca a falta de educação cristã, pois os moradores da região viviam juntos sem formalizar o casamento, haviam muitas brigas entre os casais, além das diversões locais e festas religiosas que iam contra o processo de romanização.

Segundo o Livro de Tombo III, pp. 5V a 6V do Arquivo da Cúria Diocesana de Guarulhos, encontrado da seguinte forma no trabalho de Maurício Pinheiro:

“Dança de Santa Cruz - Esta dança que fazem em algumas capellas da roça, e que dura toda a noite do dia de Santa Cruz, é também um dos abusos d'este povo habituado ainda aos costumes selvagens. É um costume apparentemente respeitoso, mas que dá lugar a cenas pouco honestas e por vezes escandalosas, devido à promiscuidade de (...)24, e que termina não raras vezes, em desordem e brigas. Apesar de ter empregado vários meios para acabar e extinguir esse abuso, nada grande consegui ainda, porque essas danças se realisam em capellas um pouco afastadas, onde não tenho possibilidade de intervir direta e pessoalmente. Dança de S. Gonçalo - É este também um costume desordenado d'este povo. Essa dança não se realisa em epochas determinadas do anno, mas somente quando alguém faz tal promessa a S. Gonçalo, dando assim ocasião, a haver por vezes um sem número d'essas danças por anno. É talo fanatismo d'este povo que, sempre que fazem essa promessa, à cumprem quer consigam o que desejam, quer não. No primeiro caso fazem-na para agradecer a S. Gonçalo a sua suposta intercepção, no segundo caso é, dizem elles, para que S. Gonçalo os não castigue. Nada grande consegui ainda para extinção d'este abuso, e falta de respeito para com esse santo da Nossa Santa Igreja.

Rezas na roça - Há também o costume de, em quase todos os sábbados e domingos à tarde e à noite, se reunir, ora aqui, ora alli, a população d'alguns bairros mais próximos, para fazerem as suas rezas. Ahi n'essas pobres capellas, n'essas humildes hesmidas, longe de se ouvirem rezas somente se escutam as cantilenas monótonas d'esse povo roceiro. N'essas rezas, cantadas monótonas e desafinadamente, não falta, de maneira alguma, a necessária e indispensável pinga (Caninha). Também pouco tenho conseguido com os vários meios que tenho empregado, para exterminar esse verdadeiro cancro social.”

 

Padre Celestino, seguindo do catolicismo de Roma, é enfático contra as manifestações dos grupos populares, ainda tão presentes nas festividades de Bonsucesso: 

“A Entrada da ‘Folia’ nas Igrejas - Por occasião da festa do Divino Espírito Santo, fazem ainda aqui a tradicional "folia" cantando, acompanhados por violões e tambores, a chamada "alvorada" não obstante haver sido prohibida pela Auctoridade Eclesiástica. Depois de percorrerem várias ruas da cidade, commettiam o abuso inqualificavel, de entrar na Igreja, cantando assim d'essa maneira irrisória e somente própria de povos selvagens, as suas orações. Proibi terminantemente esse abuso, e apesar de occasionar não pequenas indisposições, não mais se repetiu tal facto. Quis, cumprindo escrupulosamente as disposições de S. Excia Revma o Senhor Dom Duarte Leopoldo e Silva, acabar com esses busbescos passeios da "folia" pelas ruas, mas não me foi possível, devido à pouca energia das auctoridades policiais”.

No restante do documento o sacerdote continua a destilar sua total oposição aos costumes dos moradores deste lugar. Ele chega a chamar as pessoas de pecadores públicos, pois não seguiam as leis da Igreja e nem do Estado, uma vez que não formalizavam o casamento.

O religioso tinha uma visão eurocêntrica e não considerava os costumes, atualmente, vistos como parte da fé dos brasileiros. Na Sala de Milagres da Catedral de Nossa Senhora de Bonsucesso é visível a mistura de culturas que compõem a celebração em homenagem à Nossa Senhora de Bonsucesso e Festa da Carpição. Na sala são encontrados objetos como os saquinhos com terra, que fazem parte da fé ligada aos costumes indígenas, além de imagens relacionadas aos cultos de religiões afro-brasileiras e também de padre Cícero, símbolo da fé popular, em especial no nordeste do país.

Essas resistências tiveram mais forças que as designações oficiais da igreja, pois foram carregadas pelas ancestralidades dos povos presentes na construção identitária do Brasil. 

A distância geográfica entre Bonsucesso e a região do centro é crucial para a questão religiosa. Apenas em 1966, a Igreja de Bonsucesso ganha seu primeiro vigário fixo, o padre Carlos Spaniol.

A visão sobre as festividades do bairro para o restante da cidade começa a mudar a partir da década de 1960, pois até então, pesquisadores como João Ranali tratavam as manifestações populares como pitorescas, divertidas ou coisas de gente simples.